Do Começo ao Fim


Filme mostra um relacionamento homossexual e incestuoso de maneira inverossímil e vazia



A intenção prévia de polemizar ao abordar uma relação amorosa homossexual e incestuosa, apesar do sucesso do trailer no Youtube com mais de 700 mil acesos, não foi concretizada através do filme. Do Começo Ao Fim, trabalho mais recente do diretor Aluzio Abranches (Um Copo de Cólera, 1999), se caracteriza por relações humanas irreais e comportamentos artificiais.

A polêmica é deixada de lado com a intenção de construir um relacionamento terno e singelo, porém não é amparado por nenhuma característica verossímil. Logo na primeira cena, um texto em off toca na questão do livre arbítrio, mas a voz do ator Rafael Cordeiro, desprovida de qualquer naturalidade não surte o efeito desejado.

Os irmãos de pais diferentes Francisco (João Gabriel Vasconcelos) e Thomás (Rafael Cordeiro) são criados juntos e, desde cedo, nutrem um carinho e cuidado exarcebado e recíproco. É justamente nessa fase da vida em que os garotos passam a descobrir o seu corpo e a despertar uma boa dose de curiosidade sobre a sexualidade, porém os personagens não demonstram qualquer atração física recíproca. Abranches constroi um relacionamento artifical, desprovido de qualquer conflito e interesse sexual mútuo por parte dos irmãos, apesar da desconfiança sutil dos pais dos meninos. Tudo é tratado um estranha naturalidade, que beira o surrealismo.

Já adultos, na primeira cena com apelo sexual entre os dois, Abraches opta por uma tomada excessivamente longa, com uma trilha incoveniente e comportamentos sem qualquer beleza e naturalidade aparente. Em seguida, um corte abrupto conduz o espectador para o dia seguinte, no quarto, onde ambos dormiram juntos.

A trama se caracteriza pela ausência de uma história, uma hora e meia se passa e nada nos é contado ou discutido. A polêmica fica restrita ao argumento inicial do filme. Abranches cria um mundo mágico em que o casal não tem qualquer tipo de problema, angústia ou questionamento, nem se sentem pressionados ou coagidos pela família ou pela sociedade.

Um filme vazio em sua proposta com uma trilha sonora melodramática sem sentido. O filme se resume ao dois personagens principais, de um modo autista, com um tom romântico ao extremo, perdendo-se uma rara oportunidade de abrir a cabeça de muita gente sobre o tema. Um desperdício do começo ao fim!

Nota: 4,0


As cantoras Marcia Castro, Mariana Aydar e Maria Gadú causaram frisson em Salvador


Show integrou o projeto Música em Todos os Ouvidos que levou grandes nomes do cena musical brasileira aos largos do Pelourinho


Crédito: Valter Pontes

Marcia Castro, Mariana Aydar e Maria Gadú, as três maiores revelações da música popular brasileira recente, causaram frisson na última sexta-feira, 13, no Largo Pedro Archanjo, Pelourinho. O show fez parte do projeto Novembro – Música em Todos os Ouvidos, realizado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em parceria com o Pelourinho Cultural, programa da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.


Quem passava pelo Pelourinho horas antes do show, deve ter se surpreendido com um movimento diferente. Desde o início da tarde, fãs e amantes da boa música circulavam pelo Pelô, logo após adquirirem os seus ingressos para a grande noite. A primeira a subir ao palco foi a baiana Marcia Castro que provou já ter uma legião de fãs no Estado que se esbaldou ao som da mistura de jazz, frevo e samba-rock da artista.


No repertório, o público pôde conferir as composições que fazem parte do seu primeiro disco, intitulado Pecadinho. O grande sucesso do CD, a música Frevo Pecadinho, composição de Tom Zé e Tuzé de Abreu, foi executada duas vezes para o delírio dos fãs, que não se fizeram de rogados e dançaram ao som do mais conhecido ritmo pernambucano. Grandes sucessos da música brasileira ganharam releituras originais na voz da baiana e de sua banda, que conta com Tamima Brasil, ex-percussionista de Cássia Eller, na bateria. Entre alguns deles, Nega Neguinha, de Zeca Baleiro, Preta Pretinha, dos Novos Baianos e Jorge Maravilha, de Chico Buarque.


Marcia fez também uma homenagem aos 40 anos de Moraes Moreira e cantou um dos clássicos do frevo, a músicaVarre, Varre, Vassourinha. A artista afirmou estar muito feliz em participar do projeto Música em Todos os Ouvidos.“É muito importante para a Bahia e para os baianos trazer produtos e artistas novos que estão fazendo sucesso no Sul e Sudeste do país”, contou.

Fabiana Tavares é fã de Marcia Castro há tanto tempo que nem se lembra ao certo quando a admiração teve início. “Recordo que a primeira vez que eu ouvi Marcia foi em um show no Parque da Cidade. Desde então, comprei o disco e passei a acompanhar a carreira dela”, revelou. “Ela canta a verdade, a cultura, o que é nosso, da Bahia”, contou cheia de entusiasmo.


A paulista Mariana Aydar subiu ao palco em seguida para brindar o público com seu samba contemporâneo influenciado pela bossa nova, pelo samba carioca e pela música nordestina. Aydar cantou as músicas do seu segundo disco,Kavita 1, e aproveitou para apresentar as canções inéditas que fazem parte do seu terceiro e último disco,Peixes, Pássaros e Pessoas. “Não tenho palavras para descrever o quanto eu amo essa cidade”, revelou Aydar que conheceu Salvador ainda criança, por conta de seu avô que é baiano. A paulista convidou também sua amiga Marcia Castro para subir ao palco e juntas fizeram uma homenagem à cantora cubana Mayra Andrade.



Mas foi mesmo o show da carioca Maria Gadú, o mais esperado da noite, que levantou o público. Surpreendida pela recepção calorosa, a artista correspondeu com largos sorrisos e poucas e sinceras palavras. “Gente, não sou de falar. Tenho muita vergonha”, revelou. “Estou muito, mas muito feliz de estar aqui”, completou.


A carioca brindou o público com as músicas cheias de frescor do seu primeiro e homônimo CD, inclusive o hitShimabalaiê, que faz parte da trilha sonora da novela Viver a Vida, da Rede Globo. Em uma das canções, convidou o seu amigo e parceiro de longa data, o sorridente e cativante Leandro Léo, para cantar junto com ela a músicaLaranja, que ganhou um bis a pedido do público, junto com Ne Me Quitte Pas.


Para a diretora do Pelourinho Cultural, Ivanna Soutto, o programa segue mais uma vez como porta de entrada para os grandes talentos da música brasileira. “Desde o início de nossa atividade, o Pelourinho se tornou o début de muitos artistas”, afirmou. Quatro meses atrás, Ivanna iniciou as conversas com Aydar e Gadú a fim de viabilizar o show em solo baiano. Agora as conversas são para trazer Maria Gadú já no início de 2010. Os fãs não perdem por esperar!


O projeto Novembro – Música em Todos os Ouvidos se encerra na próxima sexta-feira (20), com o dia das Orquestras. Desta vez, o Largo Pedro Archanjo receberá os shows das orquestras Rumpilezz, da Bahia, Ska Maria Pastora, de Pernambuco e a Orquestra Brasileira de Músicas Jamaicanas, de São Paulo.

Caro Senhor Horten

Odd Horten é condutor de trens há 40 anos. Tão monossilábico quanto seu prenome. É introspectivo e leva uma vida tão previsível quanto os trens que ele controla. Horten está prestes a se aposentar, restando apenas uma viagem para ele encerrar sua carreira. No entanto, um acontecimento inusitado faz comegue atrasado e acaba perdendo sua última partida. Esse rompimento da rotina acaba gerando situações divertidas, dramáticas e transformadoras na vida do metódico Odd.


Caro Senhor Horten (O'Horten, Noruega, 2007) foi o filme escolhido pela Noruega para representar o país no Oscar 2010. Apesar do insucesso nessa empreitada, o cinema norueguês nos brinda com um filme original que levanta a questão da solidão e da velhice de forma bem emblemática.

Dirigido por Bent Hamer, Caro Senhor Horten é uma comédia dramática, cheia de sutilezas e humor ingênuo, mas não menos inteligente, com situações um tanto quanto surreais. A jornada de Odd pelo interior da Noruega irá revelar para ele um caminho necessário, porém pouco previsível. Mas é o encontro com o ex-diplomata e colecionador de armas Trygye Sessener (Espen Skjonberg) que abre os olhos de Horten. Essa cena apresenta os melhores diálogos e tiradas do filme.

Caro Senhor Horten é uma linda homenagem a uma fase da vida que, embora represente o último ciclo da vida, é um tempo de se realizar o que não se teve coragem ou tempo, enquanto jovem. Lindas e representativas imagens, poucos diálogos, uma trilha sonora minimalista e uma atuação cheia de expressividade, carisma e sensibilidade do protagonista, interpretado por Baarde Owe, que com poucas palavras levanta um discussão bastante pertinente. Filme surpreedente e original que merece ser visto e reconhecido!

Nota: 7,5


Besouro

A expectativa, muitas vezes, é proporcional à decepção por mais boa vontade que tenhamos com o produto a ser analisado. "Besouro", sem qualquer exagero, era o filme mais esperado pelo público brasileiro em 2009. Referendado pelo ótimo trailer que fez sucesso na internet, com milhares de visualizações e por criar um super herói genuinamente brasileiro.


No entanto, a grande expectativa e a louvável idéia de um herói capoeirista se dissipa tão rapidamente quanto os movimentos de Besouro. Os minutos iniciais são um banho de água fria no espectador mais atento. Utiliza-se em demasia o recurso textual para contextualizar a história e de forma redundante, ao invés de nos mostrar através de imagens.

Os diálogos iniciais são fraquíssimos e as atuações da mesma forma. O roteiro é burocrático, arrastado, tornando um filme sobre o lendário capoeirista do recôncavo baiano pouco ágil, com situações e conversas que pouco acrescentam à trama.

As boas passagens ficam por conta do ótimo ator Irandhir Santos, o Noca de Antônia. A cena que mistura capoeira e sensualidade entre Besouro (Aílton Carmo) e Dinorá (Jessica Barbosa) é outro destaque positivo do longa-metragem do diretor iniciante em longa-metragens, mas com sólida e premiada carreira publicitária, João Daniel Tikhomiroff. A marcante trilha sonora cantada por Gilberto Gil e a Nação Zumbi deve também ser valorizada.

Mas os problemas na direção, roteiro e elenco ofuscam de forma cruel a bela iniciativa e o que há de interessante no filme. A feira popular, o surgimento do herói, o comportamento dos vilões, tudo é abordado de modo muito inverossímel. Falta a Tikhomiroff o traquejo cinematográfico. A fotografia em nenhum momento explorou a paisagem da Chapada Diamantina e as lutas não tiveram seu caráter épico, devido aos planos fechados e claustrofóbicos. Mas mesmo de forma atabalhoada, é uma homenagem à Bahia e a nossa cultura tão peculiar.

Nota: 4,5



Espetáculo "Além da Mágica" mistura ilusionismo e dramaturgia

Integrante do Festival Internacional de Artes Cênicas que acontece em Salvador até o dia 31 de outubro, o espetáculo "Além da Mágica" foi apresentado no último fim de semana no Teatro Moliére na Aliança Francesa.


A montagem é uma concepção cênica que transpõe o mistério e a magia do ilusionismo, utilizando recursos do teatro. Célio Amino conta de maneira bem particular e bem amarrada de que forma ele iniciou no mundo da mágica.

Com um tom sóbrio, mas não menos cativante, "Além da Mágica" nos apresenta a filosofia que enolve o ilusionismo e o Japão milenar, através da relação discípulo-aluno. Célio Amin acredita que o encontro da mágica com a dramaturgia é surpreende em ambos aspectos. "Acredito que a mágica ofereça um desarme da lógica do espectador, colocando-o em um estado que permite entrar no aspecto oculto do texto. Os recursos dramatúrgicos, por sua vez, evidenciam uma dimensão poética para os números da mágica, permitindo assim uma participação mais completa do espectador", explica.

"Além da Mágica" terá uma última apresentação amanhã, dia 28 de outubro, no Centro Cultural Plataforma, às 15h, a preços populares.

Alô Alô Terezinha

Documentário Alô Alô Terezinha é divertidíssimo mas nos esclarece muito pouco sobre a mítica figura de Chacrinha




Em Salvador, na última terça-feira, 20 de outubro, na pré-estreia do documentário Alô Alô Terezinha no UCI Orient Iguatemi, o diretor Nelson Hoineff foi logo alertando que não se tratava de um filme biográfico. "É um olhar sobre o universo de Chacrinha, cujo qual gravitam grandes artistas e as chacretes", revelou. Hoineff se propõe a fomentar o mito ao invés de desnudá-lo. O que não deixa de ser válido, interessante e, sobretudo, divertido.

Alô Alô Terezinha tem em sua essência o escracho e o humor ácido do programa do Chacrinha. É um documentário sobre o programa em si, a importância que este tinha na cena musical brasileira e a influência no cotidiano da nossa população. O caráter humorístico é a tônica do longa-metragem que apresenta situações e depoimentos impagáveis. A edição é muito bem feita, embora seja relapsa em alguns momentos.

Alguns depoimentos, sobretudo de anônimos e das chacretes, prolongam mais do que o ideal, além de serem abordadas questões que pouco contribuem para compreender o universo "chacriniano". Apenas atestam a mediocridade e degradação de algumas pessoas que participaram do programa de Chacrinha, enquanto que alguns artistas que tem muito mais coisas para compartilhar com o público, sobre a época em questão, tem seu espaço reduzido. Uma estratégia que reflete uma proposta de popularizar o filme e divertir a todo custo.

Nota: 6,5




Tá Chovendo Hambúrguer

Animação começa divertida, mas o excesso de referências desgastadas
a faz cair no lugar-comum


Que criança nunca sonhou com uma chuva de guloseimas, como hambúrguer, sorvete, pizza e doces? A nova animação da Sony Pictures, Tá Chovendo Hambúrguer, toca em uma ideia presente no imaginário do público infantil e até mesmo dos adultos. O longa-metragem chegou nos cinemas brasileiros referendado pelas ótimas bilheterias alcançadas nos EUA e não decepcionou, ajudado também pelo dia das crianças. Em apenas duas semanas em cartaz, o filme já arrecadou quase R$6, 8 milhões, levando mais de 650 mil pessoas às salas de cinema em todo o país.

A história gira em torno do bem intencionado cientista Flint Lockwood, que na tentativa de acabar com a fome do mundo, inventa uma máquina que faz chover comidas e guloseimas deliciosas. Flint se torna uma celebridade na pequena cidade que tem o sugestivo nome de Chewandswallow (Coma e engula, mas na versão dublada transformou-se em "Boca Cheia"). No entanto, sua generosidade foge do seu controle e ele começa a ser hostilizado pela população local e precisa descobrir uma forma de contornar os problemas causados pela sua invenção.

A animação começa de forma criativa e divertida, mas durante o seu desenrolar, a ausência de um discurso consistente e o uso de referências de outros filmes provoca uma verdadeira salada de coisa alguma. No início, trata-se de um filme de um inventor de "fundo de quintal" nerd, depois transforma-se em uma produção de catástrofes naturais, como Twister e Armageddon. A mistura não para por aí. Os gêneros de aventura à la Indiana Jones e ficção científica marcam presença, evidenciando a falta de conceito dos diretores até cair no mais absoluto lugar-comum.

A preocupação dos diretores centra-se na estética e na sensação de imersão que a projeção em três dimensões proporciona. E tudo isso é, inegavelmente, muito bem feito. Um filme destinado ao público infantil, infantil mesmo. Para qualquer adolescente e adulto, com algum discernimento, tudo soa meio bobo e repetitivo.

Nota: 5,0


Bastardos Inglórios


A violência a serviço da estética e uma brilhante homenagem ao cinema



Não há assunto que esteja encerrado por si só e não nos proporcione novas visões e abordagens. Quentin Tarantino mostra justamente isso com o seu mais novo filme "Bastardos Inglórios", que toca na relação nada harmoniosa entre judeus em nazistas durante a 2ª Guerra Mundial.
O diretor constroi histórias, inicialmente indepedentes, divididas em capítulos com ritmos e significados bem particulares.

A primeira refere-se ao coronel Nazista Hans Landa (Cristoph Waltz), conhecido pela sua "habilidade" de caçar e exterminar judeus. Ao chegar em um casebre na zona rural, ele encontra um francês que vive com suas três filhas. Logo neste primeiro capítulo temos a real dimensão do que está por vir. O diálogo dos dois homens nos proporciona uma trama psicológica das mais tensas e contundentes que acaba com o assassinato de uma família de judeus que estava escondida no subsolo da casa. Apenas a garota Shosanna Dreyfus (Melánie Laurent) consegue fugir e sumir no horizonte.

Paralelamente, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt), descendente de índios, organiza uma milícia para torturar e exterminar os soldados nazistas, utilizando requintes de crueldade, como estourar a cabeça deles com um taco de beisebol e cabelos escalpelados. Soshanna reaparece anos depois como dona de um cinema e passa também a ser cortejada por um dos heróis nazistas. O gênero faroeste marca presença através da última história que acontece em uma taverna, como não haveria de ser diferente.

Os personagens e as histórias convergem para o mesmo local ao final da trama: o cinema de Shosanna. É lá que será exibido um filme de propaganda nazista que reunirá a alta cúpula do regime, inclusive o führer Adolf Hitler. Dois planos de vingança diferentes contra os antisemitas são arquitetados simultaneamente, mas com um objetivo comum - o extermínio do maior número possível de nazistas.

"Bastardos Inglórios" faz inúmeras referências à sétima arte, seja através de Enzo Castellari, John Ford, Sergio Leone, John Wayne, Arnold Franck, Howard Hawks, dentre tantos outros. Um filme que só um cinéfilo como Tarantino é capaz de fazer. Diálogos imperdíveis, personagens sensacionais e a violência a serviço da estética filmíca. O personagem de Brad Pitt tentando se passar por um italiano é impagável, uma das cenas mais divertidas do filme.

Tarantino mostra a sordidez da alma humana sem fazer uso de qualquer julgamento. O público se diverte com o sofrimento e massacre de nazistas. Provavelmente, o sentimento que os adeptos do nazismo sentiam frente ao holocausto não era diferente. O filme não poupa nenhum lado, se é que existe um lado. O diretor nos mostra ainda que o cinema não tem compromisso algum com os fatos históricos, mas com sua proposta estética e discursiva.

Um filme "tarantinesco" clássico, despido de sentimentalismos, em que o instinto humano dá o tom. Um brinde ao cinema, à originalidade e, sobretudo, ao seu público.

Nota: 9,0



Deixa Ela Entrar

Nunca foi novidade produções cinematográficas que abordem a figura mitológica do vampiro, sobretudo, após o sucesso das novelas vampirescas adolescentes de Stephenie Meyer. No entanto, em que as inúmeras obras do gênero geralmente pecam, temos em "Deixa Ela Entrar" de forma bem consistente. Personagens bem construídos, despidos de maneirismo e comportamentos "engessados"e previsíveis e uma trama que passa a sua mensagem com contundência.


O filme é mais que uma história de vampiros. A trama aborda a relação do garoto Oskar (Kare Hedebrant) com sua misteriosa vizinha Eli (Lina Leandersson). Ele, um garoto instrospectivo e solitário que vive com a mãe e eventualmente passa uns dias na casa do pai. Ela, uma garota aparentemente solitária com quem ele se encontra durante as noites em frente ao prédio deles.

O fato de Eli ser uma vampira não dá o tom da trama e é isso que a torna ainda mais interessante. Sua origem é tratada com uma certa dose de naturalidade, assim como seu comportamento e as eventuais mortes que ela causa, como algo natural. "Deixa Ela Entrar" aborda a solidão de forma nada superficial. A relação de Eli e Oskar cresce a medida que esse sentimento os consome e, através dela, conhece de forma mais intensa os significados do amor e vingança.

O longa-metragem lança um olhar instigante e revelador sobre uma temática um tanto quanto pobre e previsível. O filme de Tomas Alfredson é bastante provocador e faz uso de algumas sutilezas sem esclarecer em alguns casos o que ele deseja. Mas é elogiável a atuação dos dois atores principais e o modo com que esses personagens são construídos. O ritmo da trama e as tomadas externas evidenciam ainda mais a essência solitária e nostálgica desse ótimo filme que não deve passar despercebido.

Nota: 8,0


Salve Geral

No fim de semana do dia das mães do ano de 2006 não há um paulistano que não se lembre do pânico que os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) geraram na população. O novo filme de Sérgio Rezende - Salve Geral - aborda justamente esse período marcado por muita violência e medo.


O interesse em conferir o mais novo drama nacional ganhou um gás novo com o anúncio de que o longa-metragem está na disputa para ser um dos indicados ao Oscar 2010. Assim como no filme anterior de Rezende (Zuzu Angel), o fio condutor é a preocupação e procura de uma mãe - muito bem interpretada por Andréa Beltrão - por seu filho, interpretado pelo jovem e competente ator Lee Thalor.

Após se mudarem para um bairro suburbano, devido à dificuldades financeiras, a vida de professora de piano Lúcia (André Beltrão) e o seu filho Rafa (Lee Thalor) mudam completamente quando ele comete um homicídio por acidente, sendo preso em flagrante, e passa a conviver no presídio com os integrantes do PCC.

Em uma de suas visitas ao presídio, Lúcia conhece a advogada Ruiva(Denise Weinberg), que na verdade integra o Comando. A mãe de Rafa passa a realizar pequenos favores, a entregar encomendas para dos presidiários do PCC e acaba se envolvendo emocionalmente com um dos líderes do movimento. A grande falha do filme está justamente nesse ponto. Lúcia em nenhum momento questiona o que a Ruiva lhe propõe, assim como não há sequer nenhuma preocupação ética e moral quanto à sua relação com o preso, conhecido como o Professor. Rezende reduz o envolvimento de Lúcia com PCC de um modo muito mecanicista. Atribui-se esse atitude ao seu desespero em tentar tirar seu filho da prisão, o que tornou vulnerável sua incorporação ao sistema criminoso.

Acredito que o que contribuiu para Salve Geral ter superado outras nove produções nacionais na disputa por uma indicação do Oscar foi o seu roteiro. É o grande trunfo do filme. Muito bem elaborado, ágil e que soube contextualizar os motivos que levaram aos ataques violentos. Rezende construiu um drama policial sem fazer uso de muitas cenas de violência e sem perder o bom ritmo que permeia o longa.

As atuações são outro ponto forte. André Beltrão e Denise Weinberg estão inspiradíssimas e Lee Thalor está ótimo. O que não torna Salve Geral acima da média é o fato de não ir além dos conhecidos acontecimentos. As discussões morais são muito tímidas. Os melhores diálogos ficam por conta de Rafa e o seu companheiro de cela Xizão (Michel Gomes). Duas das cenas mais representativas ficam por conta dos dois. A primeira é quando Xizão mostra o manifesto do partido, no entanto Rafa alerta para um erro de concordância e Xizão conta que não é pra mexer no texto porque o PCC quer assim e o correto vai passar a ser daquele jeito. Em outra cena, ao ser questionado sobre sua fé nos ideais do partido, Xizão adverte - Se eu não acreditar nisso eu vou acreditar em quê?

Rezende consegue construir muito bem o caldeirão em ebulição que se transformou a capital paulista, aliada a intensa e competente trilha sonora do estreante em cinema Miguel Briamonte. Porém, o filme em si pouco acrescenta a filmografia sobre esta temática já abordada exaustivamente pelos cineastas brasileiros que é a violência urbana. Uma história muito bem contada, mas que não se propõe a alçar voos maiores.

Nota: 7,0

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